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O MITO DA CAVERNA: INTERTEXTO DO CASO DOS EXPLORADORES DE CAVERNAS? E-mail

José Erigutemberg Meneses de Lima – Graduado em Ciências Econômicas e acadêmico do Curso de Direito da FURB – Fundação Universidade Regional de Blumenau – Santa Catarina.

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Resumo: A noção de intertextualidade como referência a outros textos é antiga na visão tradicional da literatura, dando-lhe reserva em gêneros específicos como a sátira, a paródia, o plágio etc. ou a certas partes do texto como as citações, notas e epígrafe. Posteriormente, em dimensão ampla,  a intertextualidade passou a ser aplicada à literatura como um todo. Platão constitui referencial inevitável no pensamento ocidental ao longo de muitos séculos. O diálogo A República, ao idealizar o Estado perfeito, é fonte inesgotável onde os juristas buscam uma melhor compreensão da justiça e das leis. O fictício O caso dos exploradores de cavernas é parábola contemporânea e constitui-se em marco inaugural do pensamento jurídico para estudiosos do Direito.  O propósito, do presente trabalho, é realizar uma leitura intertextual, que permita observar de que forma o Mito da caverna de Platão está presente na obra de Lon Fuller O caso dos exploradores de cavernas.

Sumário: 1. Introdução; 2. Inferências Intertextuais; 3. Considerações finais; 4. Referências Bibliográficas.

Palavras-chave: Platão – Justiça – Saber – Intertextualidade – Mito.

1. Introdução

Concordam os críticos que alguns autores, na reflexão teórica ou na produção literária, utilizam obras consagradas na fundamentação das próprias teses, sob a influência deprocessos mentais conscientes. Estes, reconhecem ser de outrem a idéia-suportedesenvolvida em seus textos. Contudo, pode ocorrer que, em virtude de processos mentaissubconscientes, leituras remanescentes, adormecidas, manifestem-se em outros que nempercebem explorar argumentação alheia.

Erasmo de Rotterdam ilustra bem o que se afirma. Em Elogio à Loucura[1], o autor faz notar que é a demência que traz o homem ao seu estado natural, em detrimento dasciências que afastam o homem do que é intrínseco da sua existência. Quanto mais próximoda natureza, mais próximo da felicidade.

No texto, Erasmo demonstra que as pessoas percebem diferentes realidades e conseguem viver felizes diante de qualquer situação real. Para melhor ilustrar a justificativa, remete a O mito da caverna, extraído de A república de Platão. Inverte, porém, o sentido da alegoria, mostrando que, independentemente, de haver um mundo melhor, cada homem podeser feliz dentro da sua realidade, mesmo essa não sendo a verdadeira. [2]

Em A caverna, José Saramago descreve um mundo em rápido processo de extinçãoonde outro cresce e se multiplica como um jogo de espelhos, parecendo não haver limitespara a ilusão enganosa. Neste mundo, uma família de oleiros compreende achar-se desnecessária à vida. No enredo, o prêmio nobel português apresenta, também, a inspiração e as reflexões da poderosa crítica à condição dos homens, escrita muitos séculos atrás.[3]Os críticos de Saramago haviam apontado o mito como um dos intertextos de Ensaio sobrea cegueira[4]. Em A caverna, foi o próprio autor quem o elegeu como o principal intertexto.

Pode-se mencionar, como referência dos diálogos entre textos, no Brasil, entre outros,  a intertextualidade que Machado de Assis traçou com Shakespeare.  Na obra DomCasmurro, ecos de Otelo ressoam à farta.

A base temática das duas obra é o amor - sentimento imenso que acaba levando, porrazões de ciúme, ao desfecho trágico. Em Otelo, o herói mouro assassina Desdêmona, suicidando-se ao descobrir a injustiça da violência. Machado narra em Dom Casmurro um idílioadolescente que culmina em casamento. Na suspeita de está sendo traído, o cônjuge resolveir à forra da esposa e do filho que supõe bastardo. Sob pretexto, os envia para a Europa, ondefalecem.

Neste ponto, vale a pena recordar que a própria obra shakesperiana derivou da novelaitaliana Sétima novella da terceira década da hecatommithi, de Giraldi Cinthio (século XVI), tendo o bardo inglês modificado nomes, situações e o caráter de alguns personagens. [5]

Na literatura, a intertextualidade é recorrente, em razão de cada estilo de época,mesmo se opondo ao anterior, retomar parte da estética passada. Mas, a absorção e a transformação de idéias ou conceitos não é prática exclusiva de textos literários escritos,como se é de supor. É fenômeno presente, em todas as formas de manifestação artística delinguagens verbais ou não-verbais.

No âmbito das relações comunicacionais de signos icônicos, de linguagens estranhas ao mundo verbal (das línguas naturais), tome-se por exemplo a polêmica em torno das comparações entre O código da Vinci [6], o filme de Ron Howard e o livro de Dan Brown [7]. São linguagens diferentes que tratam de um mesmo assunto, guardando relação de sentido um com o outro.

A remissão a textos e paratextos do circuito cultural que se insere de forma modal na literatura, no cinema, na mídia, propaganda, outdoors , nomes de marcas de produtos etc.ocorre, também, na produção científica de áreas correlatas de conhecimento que utilizamconceitos e expressões comuns, expostos em trabalhos anteriores.

Quem produz ensaios, monografias, dissertações e teses, por exemplo, faz referência clara a autores reconhecidos, que sustentam os pontos de vista defendidos.  A intertextualidade é explícita, sendo destacadas as citações colhidas de várias fontes. Neste próprio artigo há variadíssimos tipos de referências explícitas como as citacões entre aspas, com indicação da fonte ou implícitas, no caso das traduções livres desenvolvidas sobre o pensamento de outros autores (paráfrases).

Mas, se Erasmo inverteu a premissa para justificar sua obra; Machado metamorfoseouOtelo em Dom Casmurro, o que também fizera Saramago em A caverna e Ensaio sobre acegueira, Fuller estruturou O caso dos exploradores de cavernas com o subconsciente atentoao mito platônico?

Não indicações de que tenha o jurista norte-americano utilizado, intencionalmente, a alegoria de Platão para construir o enredo de seu texto. É, contudo, perfeitamente, possívelimaginar-se que tenha decalcado a idéia platônica em seu texto, com base em reminiscênciasou lembranças tênues.

Ele que estudara Economia e Direito em Stanford e atuara como professor de Teoriado Direito, inicialmente, nas Faculdades de Direito de Oregon, Illinois e Duke e, a partir de 1940, na Faculdade de Direito da Universidade de Harvard, obviamente, tivera contacto amiúdecom a obra clássica.

Aqui cabe considerar que no campo da realidade intertextual, não obra original emessência, pois, como afirma Michel Foucault, em Arqueologia do saber (The archeology of knowledge):

“[...] as margens de um livro jamais são nítidas nem rigorosamente determinadas:além do título, das primeiras linhas e do ponto final, além de sua configuraçãointerna e da forma que lhe autonomia, ele está preso em um sistema deremissões a outros livros, outros textos, outras frases: em uma rede [...]” [8]

Entendida intertextualidade como a relação de um texto com outros textos de autoresdiferentes, objetiva o trabalho estabelecer se há conexão entre O caso dos exploradores decaverna, de Lon Fouler, e o Mito da caverna, de Platão, fonte de intertextualidade paradiversas obras.

2. Inferências intertextuais

Platão, o mais brilhante e conhecido discípulo de Sócrates, constitui referencialinevitável no pensamento ocidental ao longo de muitos séculos. A república (em grego:politéia) é um diálogo escrito no século IV a.C. por Platão. Esta obra ao idealizar o Estadoperfeito, é fonte inesgotável onde os juristas buscam melhor compreensão da justiça e dasleis.

O político e filósofo ateniense foi prodigioso em utilizar os mitos gregos e universaisem suas obras, como forma de melhor esclarecer as idéias disseminadas nos textos. Apalavra mito que encerra muitos significados, no presente artigo identificará uma idéia depassado, de estória fabulosa, não verdadeira, mas valorada a ponto de ter eficácia social.

O tema principal de A república, diálogo caracterizado pelo método dialético, é a justiça. Tem por enredo o debate entre Sócrates e um sofista descrente das convenções tradicionais de justiça, e para o qual a elaboração das leis fundamenta-se no interesse do mais forte.

O ponto central do diálogo ocorre quando Glauco, o principal protagonista, aponta para a dificuldade de defender a justiça como melhor que a injustiça, partindo de um ponto de vista individualista. Exige de Sócrates a explicação para ele considerar ser a justiça uma boa coisa, tanto em si mesma, quanto por suas conseqüências.

A resposta vem na demonstração de que a justiça, significando algo limítrofe entre a retidão e virtude completa, equivale a harmonia da alma e que é, obviamente, melhor do que sua desarmonia.

Em um dos enxertos da discussão, Glauco é solicitado a projetar na imaginação o caso de um grupo de pessoas cuja existência se resume a permanecer, eternamente, aprisionadas em uma caverna subterrânea.

No ambiente em penumbras, os indivíduos estão acorrentados de tal forma que sóconseguem enxergar a parede à frente. Ali, se percebem sombras de figuras humanas emmovimento, produzidas pela chama de uma fogueira postada atrás de uma tela. Toda arealidade conhecida pelos habitantes da caverna são essas sombras.

Certo dia, um dos habitantes da caverna liberta-se e descobre a origem das sombras. Ultrapassando a entrada da cavidade, vê-se diante da verdadeira fonte de luz e compreende arealidade.

Na seqüência dessa estranha alegoria surge a parte que mais interessa ao artigo. Em nova solicitação, dirige-se Sócrates a Glauco a pedir-lhe imaginar o retorno de um homem nessas condições para o seu antigo posto. A transcrição in verbis é a que se segue:

“E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os quetinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado,antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco acaso nãocausaria o riso e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão: E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até acima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?” [9]

Com essa parábola, reconhecida como O mito ou alegoria da caverna, Platão aludiu àvida de seu mestre Sócrates, morto pela assembléia ateniense sob a acusação de influenciarnegativamente os jovens. Em resumo, pretendeu demonstrar que todo o planeta terra é umagrande caverna, sendo os fenômenos da natureza meros reflexos das idéias.

Os homens, aprisionados pela ignorância, apenas, conseguem perceber, através dossentidos, esses reflexos: as sombras. Os sábios, aqueles que lutam para  ultrapassar as escarpas subterrâneas da ignorância, somentes eles,  conseguem descobrir a realidade, livre de preconceitos.

Vinte e cinco séculos separam o texto platônico de O caso dos exploradores de cavernas, parábola contemporânea que se constituiu em marco inaugural do pensamentojurídico para estudiosos do Direito.

O texto do professor Lon L. Fuller da Harvard Law School, enquanto relato em formade narrativa com caráter explicativo e repleto de personagens e situações simbólicas, constituiigualmente um mito da modernidade. O texto originalmente elaborado como artigo de revista foi publicado pela primeira vez em 1949, sendo traduzido para o português, somente, em 1976.

Em síntese, versa sobre um grupo de exploradores de cavernas que, em uma dasexpedições, fica confinado no interior de uma gruta e “quando os homens foram finalmentelibertados soube-se que, no vigésimo terceiro dia após sua entrada na caverna, Whetmoretinha sido morto e servido de alimento a seus companheiros.” [10]

Encontram-se correlações evidentes ou fatores de intertextualidade entre a obra platônica e a de Fuller? Teria havido coincidência na utilização da caverna como pano de fundo e a circunstância da isolação, elementos presentes nas duas obras? Perquirir as referências em ambos os textos é o propósito dessa investigação.

Pois bem. Em seu pequeno, mas importante texto, Fuller aguça a curiosidade doscalouros de Direito, inaugurando-os no pensamento legal, levando-os, gradativamente, àformação de uma consciência crítica sobre a realidade jurídica. Desta forma, vislumbra-se aaplicação da técnica da história metafórica, tomado como exemplo O mito da caverna de Platão. Aqui, se percebe já a existência sutil do fenômeno dialógico entre os autores.

Platão, com emprego do método dialético, procurava despertar no espírito dospatrícios o entendimento do saber, que viria de modo extensivo a desaguar na compreensãodo próprio conceito de justiça (aplicada injustamente ao mestre) figurado como o queabandona a escuridão da caverna.

O jusfilósofo norte-americano, ligado ao movimento do realismo jurídico, desejava quedo case study, hipotéticamente engendrado, os alunos percebessem, através das váriasopiniões dos juízes fictícios, as diferentes correntes da Filosofia do Direito, e delas consubstanciassem o entendimento do que fosse a justiça, praticada nos tribunais quepoderiam igualmente sentenciar pessoas injustamente.

Em Platão, o personagem, em sentido ascendente, galga as escarpas íngremes embusca da luz. Metaforicamente, a ação pode ser entendida como a busca do saber, doconhecimento e por extensão do significado da justiça. Ao perceber a nova realidade, faz ocaminho inverso para compartilhar com os demais prisioneiros, mantidos escravos no obscuromeio rochoso, o novo significado de vida, liberdade e justiça.

O contrário é percebido no universo ficcional de Fuller. O grupo de exploradores,suficientemente, pleno de consciência do que é certo e justo, em sentido descendente, brutaliza-se quando aprisionado no interior da caverna.Em meio à luta pela sobrevivência, apaga-se no espírito de todos os resquícios de conhecimento e de justiça do mundo real queexiste por detrás das grossas paredes de calcário. A ignorância da animalidade substitui aconsciência. A luta pela sobrevivência contrapõe-se a qualquer conceito do que seja correto ejusto.

É, igualmente, possível se inferir vestígios do pensamento platônico no procedimento dos magistrados da Corte Suprema de Newgarth. Pelo prisma do mito, os juízes agiram comoos prisioneiros da famosa caverna. Olharam para o fato e aplicaram a norma como se estivessem enxergando apenas sombras.

Não pararam para refletir se se deparavam com uma realidade verdadeira ou não. Acomodaram-se às correntes de suas ideologias assentadas no Juspositivismo. E é sobejamente conhecido que o pensamento ideológico é inimigo figadal da compreensão dos fatos.

Para se alcançar a importância da consciência ideológica atribuída aos magistrados, cabe breve digressão. A palavra ideologia surgiu no começo do século XIX significando a teoria geral das idéias e foi, posteriormente, politizada por Karl Marx. Conforme Marilena Chauí: “a ideologia inverte as relações entre as causas e os efeitos. Abstrai os fatos do seu contexto social e histórico. É uma visão distorcida, falsa da realidade. Isto não acontece por descuido, mas por objetivos bem específicos da classe dominante”[11].

Imbuídos de seus valores e opiniões enraizados, os julgadores desconsideraram que a fachada da caverna jurídica permite a penetração de tênue luz exterior, que se representa pelavisão do Direito Natural. É através dele que, na semi-obscuridade, se as sombras de umamelhor interpretação e aplicabilidade das leis se movendo no interior das instituições do judiciário.

Assim, as duas parábolas abordam aspectos comuns, mesmo que tratados de formasub-reptícia e inversa: o saber e a justiça. É corrente que, no pensamento de Platão, fazjustiça somente quem souber o que é justiça. E para se saber o que ela é, o conhecimento (aluz) é fundamental, tanto quanto o é para  se saber se foi justa ou não as sentençasprolatadas pelos juízes do caso proposto por Fuller.

3. Considerações finais

Empreendeu-se a análise comparativa entre O mito da caverna de platão e O casodos exploradores de cavernas, na qual se perquiriu a existência de recursos intertextuais queconcorrem para a articulação do texto de Lon Fuller com o de Platão.

Intertextualidade, ficou dito, pode estar explícita ou implícita no texto. A constataçãode sua ocorrência depende de o leitor ter conhecimento ou não do que se trata. É o que afirma Koch: “a intertextualidade diz respeito aos modos como a produção e recepção de um textodependem do conhecimento que se tenha de outros textos com os quais ele, de algumaforma, se relaciona”[12].

A pesquisa não observou os recursos básicos da alusão, da citação, da referênciaetc., embora, constatasse que, no tocante ao aspecto formal, a obra de Fuller utilizou-se daalegoria da caverna e da imagem das escarpas como símbolos para a superação deobstáculos, presentes no paradigma platônico.

É conhecido que o embasamento do livro de Fuller está nos votos dos juízes da CorteSuprema de Newgarth que variaram entre as diversas teorias da Filosofia do Direito, oferecendo uma lição sobre a essência de cada teoria, notadamente, o Jusnaturalismo e o Positivismo. A obra permite, também, conhecer como se comportam os julgadores diante de casos concretos, estando sujeitos às correntes de pensamento jurídico adotadas.

A exemplo dos personagens de Platão, os magistrados, bem como, os exploradoresda sociedade paleontológica de Newgarth estavam aprisionados nos subterrâneos doscostumes e da justiça proposta pelo direito positivado. No mundo real de conforto, nenhumdeles imaginava ver as coisas em si, surgidas a partir da adversidade.

Os magistrados, ao se depararem com as trevas do instinto desconhecido, redescoberto pelo homem em busca da sobrevivência, se ofuscaram. Não se sabe se estesjuristas em suas consciências refizeram o caminho de volta, ação praticada pelo personagemde Platão. Se o fizesse, talvez, surgisse da compreensão da experiência dos homenssentenciados à morte uma justiça renovada, aperfeiçoada, por se basear no mundo real e nãona fictícia realidade extraída dos ordenamentos jurídicos.

Não se pode esperar destino diferente para aquele que adquire consciência e volta àcaverna para libertar os demais do jugo da ignorância que os prendiam.[13] Os antigoscompanheiros de infortúnio, como os juízes da Corte Suprema, escarneceram dele, nãoacreditando em suas razões.

Os juízes com a força do positivismo jurídico bem como os habitantes do subterrâneonão conseguindo silenciar com caçoadas o brado de quem descobrira a luz do conhecimento, o fizeram calar espancando-o, uns e prendendo, outros, os togados. Como mesmo assim, oditoso teimasse em afirmar o que vira e os tentasse convencer a sair da caverna, acabaramorto, sentenciado pela ignorância de quem desejava libertar.

Os exploradores, sentenciados à morte, calaram-se diante da letargia dosmagistrados que viram na aparência das coisas aquilo que verdadeiramente não é. Satisfizeram-se com as sombras dos objetos na parede da caverna, por estarem em avançadoestágio de alienação ideológica.

A partir dessas considerações, conclui-se que o gesto intertextual de Fuller repete, demaneira inovadora, o mito da caverna. Como Erasmo de Rotterdam fez uso da temáticaplatônica de modo inverso em sua estratégia narrativa. Dadas as referências encontradas, pode-se afirmar que Fuller fizera, inconscientemente, o mesmo que Saramago, no Ensaiosobre a cegueira, Machado de Assis, em Dom Casmurro e Shakespeare, em Otelo.

Que não pairem dúvidas: intertextualidade não significa plágio, mas a interação entretextos, um diálogo entre eles. Plágio é a apropriação total ou parcial de produção alheia, tomando a autoria para si, intencionalmente, e colocada em outro contexto. Assim, não hácomo falar em plágio sem falar em consciência e intenção e ambas faltaram a Fuller naconstrução de sua magnífica obra.

Em outras palavras, pode-se afirmar que o autor, ao inverter o sentido da caminhadano interior da caverna (Ignorância-Treva → Conhecimento-Luz // Conhecimento-Luz → Ignorância-Treva) deu nova feição ao mito platônico, retirando-o de sua forma original, caracterizando o que se chama de intertextualidade fraca, diluída ou pouco explícita. Nestemecanismo, a menção feita ao texto original é tão sutil que sequer é percebida pelo leitor.

Entenda-se: é necessário competência tanto para a compreensão da leitura quanto para a produção textual. Não basta para a colimação dos dois objetivos, unicamente, o conhecimento do código lingüístico.

Escreve com proficiência quem conhece outros textos e imerge nas relações intertextuais, sabendo que todo texto é produto de diversos outros. Ao leitor cabe ter a capacidade de compreender a presença de uma citação e/ou alusão a outros escritos. Mas o reconhecimento das remissões, só o fará quem tiver alentado conhecimento de mundo.

Finalmente, a respeito de o estado natural exposto no Mito da Caverna propiciar maisfelicidade do que o estado positivista, previsto em O caso dos exploradores de cavernas,nada se pode afirmar. Tecer qualquer opinião acerca do tema, além de fugir do objeto dapesquisa, seria incorrer na loucura tão bem elogiada por Erasmo de Rotterdam.

4. Referências Bibliográficas

BROWN, Dan. O código da vinci. São Paulo: Sextante. 2004

CHAUÍ, Marilena de Souza. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense. 1983.

FOULCAULT, Michel. Arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense, 1995.

FULLER, L. Lon L. O caso dos exploradores de cavernas. Tradução Plauto Faraco de Azevedo. Porto Alegre: Fabris. 2000.

KOCH, Ingedore Villaça. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 2000.

KRISTEVA, Júlia. Introdução à semanálise. São Paulo: Perspectiva, 1974.

O CÓDIGO DA VINCI (The Da Vinci Code). Direção: Ron Howard. Produção: Brian Grazer & John Calley. Intérpretes: Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Jean Reno. Los Angeles: Sonybmg. DVD (174 min). 2005.

PLATÃO. A República. Tradução Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2003.

ROTTERDAM, Erasmo de. Elogio da loucura. Tradução Paulo M. Oliveira. Coleção Ospensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1972.

SANTOS, Ynaê Lopes dos. A reforma. Klepsidra. São Paulo. Disponível em: <http://www.klepsidra.net/klepsidra6/areforma.html>. Acesso em: 16 jul. 2006.


[1] ROTERDAM, Erasmo de. Elogio da Loucura, passim.

[2] SANTOS, Ynaê Lopes dos. A Reforma, passim.

[3] SARAMAGO, José. A Caverna, passim.

[4] SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira, passim.

[5] SANT’ANNA, Affonso Romano de. Paródia, paráfrase e cia, p. 84

[6] The Da Vinci Code. Op cit.

[7] BROWN, Dan. O código da vinci. Op. cit.

[8] FOUCAULT, Michel. Arqueologia do Saber, p. 107.

[9] PLATÃO. A República, p. 212

[10] FULLER, Lon L. O caso dos exploradores de cavernas, p. 5-6

[11] CHAUI, Marilena de Souza. O que é ideologia, p. 24.

[12] KOCH, Ingedore Villaça. O texto e a construção dos sentidos, p. 46

[13] PLATÃO. A República,  op. cit.

 

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